Eu Li Sapolsky
e Agora Sou Aquela Pessoa Chata do rolê
Deixa eu te contar como eu me tornei a pessoa que estraga conversas e causa desconfortos.
Não foi intencional. Poucas coisas ruins são — e essa é exatamente a questão, mas chego lá.
O processo foi gradual e silencioso, como a maioria das transformações que a gente só percebe quando já é tarde demais para fingir que não aconteceu. Um dia Daniel Gontijo — neurocientista, psicólogo, o tipo de pessoa que você segue na internet e depois agradece eternamente por ter expandido sua visão de mundo de forma irreversível — indicou um livro. Determinados, de Robert Sapolsky. Sobre livre-arbítrio. Ou melhor: sobre a inexistência dele.
Eu li. E aí virei aquela pessoa. A chata do rolê.
Funciona assim: alguém menciona um crime. Pode ser qualquer crime, mas no Brasil invariavelmente chega no Champinha — o adolescente de 16 anos que liderou o sequestro, estupro, tortura e assassinato de Liana Friedenbach e Felipe Caffé em Embu-Guaçu, em 2003. O caso perfeito para a tese de que algumas pessoas são simplesmente más e merecem ser removidas permanentemente da equação.
Alguém na mesa diz: “mas a gente tem escolha. Todo mundo sabe o que é certo e o que é errado.”
E é aqui que eu estrago tudo.
Não de forma agressiva — eu aprendi a modular, a vida ensina — mas de forma que deixa a conversa desconfortável do jeito que conversas honestas sobre coisas difíceis ficam desconfortáveis.
Eu pergunto: escolha com base em quê?
Champinha nasceu em 1986, em Embu-Guaçu. Cresceu em pobreza extrema, abandono e ciclos de violência que o sistema que deveria protegê-lo nunca interrompeu. Desde criança já apresentava comportamento que professores relatavam com preocupação — maltratava animais com frieza, acumulava passagens por atos infracionais, demonstrava impulsividade sem freio. Avaliações psiquiátricas posteriores documentaram danos neurológicos severos e transtorno de personalidade antissocial.
Quando alguém na mesa do bar diz “ele escolheu ser assim” — eu preciso perguntar: com qual neurobiologia? Com qual história? Com qual conjunto de possibilidades reais disponíveis para aquela criança que o Estado abandonou antes de completar dez anos?
Isso não significa que Champinha pode ficar solto. Não estou dizendo isso. Os danos documentados representam risco real e concreto para outras pessoas — e contenção faz sentido deterministicamente. Se um sistema produz periculosidade comprovada, você isola esse sistema para proteger outros. Isso é gestão de risco, não punição.
O que não faz sentido é o que o Brasil construiu em volta disso.
Depois que Champinha cumpriu a medida socioeducativa prevista pelo ECA, o sistema — o mesmo que falhou em protegê-lo quando era criança — inventou uma gambiarra jurídica para mantê-lo internado indefinidamente: interdição civil sob alegação de doença mental, numa Unidade Experimental de Saúde criada especificamente para ele, sem previsão legal sólida, sem tratamento real, contestada por especialistas do direito como inconstitucional. Mais de vinte anos depois, ele continua lá. Sem data. Sem tratamento. Sem nada além de uma contenção que o próprio Judiciário não sabe muito bem como nomear.
O problema não é Champinha estar internado. É o Brasil não ter construído nada melhor do que uma gambiarra para justificar o que ele mesmo produziu.
E tem um detalhe que para qualquer conversa: Ari Friedenbach — pai de Liana, o homem com mais razão do mundo para querer punição máxima — disse publicamente que Champinha “pagou o que devia”. É contra a redução da maioridade penal. Cita que a reincidência em presídios comuns é de 70%, contra 15% nas medidas socioeducativas. O homem que perdeu a filha da forma mais brutal possível chegou, pelo seu próprio caminho, à posição mais racional disponível.
Isso me desarmou quando descobri. E ao mesmo tempo fez todo o sentido.
Eu já rejeitava livre-arbítrio antes de ler Sapolsky. Intuitivamente, visceralmente, sem vocabulário pra isso. Eu olhava para comportamentos humanos — os meus, os das pessoas que amava, os das pessoas que me machucavam — e algo em mim resistia à explicação de que aquilo era simplesmente escolha. Parecia que estava faltando alguma coisa na conta.
Faltava. E Sapolsky me mostrou o quê.
Determinados constrói um argumento que é simultaneamente óbvio e perturbador: não existe um ponto no tempo onde você poderia ter feito diferente. O que você fez foi resultado do seu estado biológico naquele segundo. Que foi resultado do que aconteceu um minuto antes. Que foi resultado da sua infância. Que foi resultado do útero onde você se desenvolveu. Que foi resultado da genética dos seus pais. Que foi resultado de milhões de anos de evolução que ninguém planejou.
A cadeia causal não tem início voluntário. Não há lugar onde uma vontade livre entra e redireciona o curso.
Quando li isso, não foi surpresa. Foi reconhecimento. Sabe aquela sensação de ler algo e pensar “eu já sabia disso, só não sabia que sabia”? Pois é. Sapolsky não me convenceu de nada novo. Ele organizou o que eu carregava de forma dispersa há anos e deu estrutura suficiente pra eu parar de me sentir uma lunática solitária com opiniões improváveis. Como ser antipunitivista e contra pena de morte, por exemplo.
Pena de morte pressupõe que a pessoa merece morrer pelo que escolheu fazer. Se eu rejeito a agência — e rejeito — o “merece” perde fundamento. Você não pode executar alguém pelo que o sistema inteiro que o produziu fez.
O que faz sentido deterministicamente é a contenção — isolar o sistema quando ele representa periculosidade comprovada. E reabilitação quando possível — porque se comportamento é produto de condições, alterar condições pode alterar comportamento.
O que não faz sentido é punição como fim em si mesma. Sofrimento como resposta ao sofrimento, justificado pela ideia de que a pessoa poderia ter escolhido diferente.
Mas essa compreensão me expulsou de vários paraísos: perdi a capacidade de achar que raiva é argumento. Perdi o conforto de dividir o mundo em pessoas boas que escolhem o bem e pessoas más que escolhem o mal. Perdi algumas conversas informais que teriam sido mais tranquilas se eu tivesse ficado quieta.
Mas eu também ganhei, sabe? Ganhei a pergunta certa: não “por que essa pessoa escolheu isso”, mas “o que produziu esse resultado e o que precisa mudar para que não se repita”.
Ganhei também uma tolerância que não é passividade — é entender o mecanismo sem precisar aprovar o resultado.
E ganhei a companhia de Sapolsky, que dedica quatrocentas e tantas páginas para dizer, com todo o rigor da neurociência, o que eu já sabia num nível que não conseguia articular.
Às vezes um livro não te dá o que você não tinha. Ele só te mostra o que você já era — e te salva do trabalho de continuar fingindo que não era.
