O Código Que Eu Sou
Teria como sermos diferentes?
Sapolsky diz que não.
Que tudo que somos — cada padrão de pensamento, cada reação visceral, cada escolha que parece escolha — é o resultado inevitável de uma cadeia causal que começa antes do nascimento e não tem ponto onde uma vontade livre poderia ter entrado e redirecionado o curso.
Eu acredito nisso. Defendo isso. Escrevi sobre isso.
E mesmo assim, quando aplico o framework a mim mesma, algo no cérebro resiste levemente. Não porque duvido da teoria. Porque ver o mecanismo da própria construção é diferente de ver o mecanismo da construção dos outros.
Então vou tentar fazer isso em voz alta. Hoje, o dia em que completo 46 anos vivendo nessa Terra.
O Que Entrou
Meu pai tinha enciclopédias.
Isso pode parecer detalhe biográfico menor. Não é. Numa casa humilde e relativamente conservadora do interior de SP, numa época em que acesso a conhecimento sistematizado não era dado, um homem comprou enciclopédias e as deu para a filha. E ficou ali enquanto ela lia.
Conhecimento ficou associado a vínculo desde o início. Não aprendi que livros eram instrumentos de acesso — aprendi que livros eram uma forma de estar perto de alguém que eu amava. Isso explica por que debates intelectuais são afeto para mim. Por que não consigo tratar ideias como transações. Por que levo tão a sério o que leio que as pessoas ao redor às vezes acham excessivo.
Não é excesso. É o código que foi instalado antes de eu ter vocabulário para questioná-lo.
Depois veio Freire na universidade. Mas Freire não me convenceu de nada que eu já não praticasse — ele me deu nome para o que eu já fazia. Leitura de mundo antes de leitura da palavra. Eu já lia o mundo assim. Só não sabia que tinha método.
O Que a Escola Fez
A escola era meu lar antes de ser minha profissão.
Não porque eu amasse ensinar desde criança — essa é a versão bonita que não é verdade. Mas porque em casa não havia espaço para existir. Não espaço físico, não espaço para ser quem eu era. E a escola tinha regras claras, tinha estrutura, tinha um lugar específico onde inteligência era moeda válida.
Eu cabia na escola quando não cabia em outros lugares.
Então quando fui trabalhar em escola, não foi vocação no sentido romântico. Foi retorno ao único lugar onde existir havia sido seguro. E fiquei porque descobri que conseguia dar para outros o que a escola tinha dado para mim — um lugar onde caber.
O problema dessa origem é o seguinte: quando a escola vira instituição que falha — quando o sistema que deveria proteger estudantes é corrompido por quem tem poder, quando protocolos são violados e ninguém responde — eu não processo isso de forma abstrata. Processo como traição pessoal. Porque nunca foi abstrato. A escola nunca foi só trabalho.
Sapolsky me ajuda a entender por que isso dói do jeito que dói. Não escolhi fazer da escola um lar. Fui construída pra isso pelas condições que encontrei antes de ter capacidade de escolher qualquer coisa.
A Depressão
Aos 16 anos eu queria dormir e nunca mais acordar.
Não era figura de linguagem. Era um desejo real, recorrente, que eu carregava em silêncio porque não havia vocabulário disponível no meu ambiente para nomear o que era. Não havia espaço em casa para existir, como já disse. Havia ainda menos espaço para estar mal.
Então eu estava mal em silêncio.
A depressão não chegou aos 16. Provavelmente estava sendo construída muito antes — pelas condições, pelo isolamento, pela intensidade de um cérebro que processava mais do que o ambiente conseguia absorver e não tinha para onde escoar. Aos 16 só ficou grande o suficiente para eu perceber que tinha nome, mesmo sem saber o nome ainda.
Carrego isso desde então. Às vezes mais alto, às vezes mais baixo. Nunca foi embora completamente.
E aqui é onde o ceticismo e a depressão se encontram de um jeito que as pessoas raramente discutem: um cérebro que não consegue aceitar conforto sem evidência também não consegue aceitar as narrativas que normalmente aliviam a depressão. Não consigo me dizer que tudo tem um propósito. Não consigo acreditar que o sofrimento fortalece ou que existe um plano. Não consigo usar fé como anestesia porque o detector de inconsistência não desliga nem quando seria conveniente que desligasse.
O agnosticismo não é uma posição filosófica que adotei por princípio. É a única posição honesta disponível para um cérebro que exige evidência antes de comprometer-se com qualquer afirmação sobre o que não pode ser testado. Cresci num ambiente que oferecia Deus como resposta para tudo — e cada vez que tentei aceitar essa resposta, algo travava. Não por rebeldia. Por impossibilidade cognitiva.
O problema é que Deus, além de resposta metafísica, funciona como regulador emocional para muita gente. Tira o peso da contingência. Dá sentido ao sofrimento. Oferece companhia no escuro.
Eu não tenho acesso a esse regulador. Nunca tive. Mesmo sendo sido ensinada por 18 anos a ter.
O que tenho é o framework materialista — que é mais honesto, mais consistente, e significativamente menos confortável nas noites em que o cérebro decide que existir é custoso demais.
O Corpo e o Código da Escassez
Minha mãe emigrou ainda criança para São Paulo. Ela carregou o medo da escassez no corpo durante décadas — e esse medo tem uma expressão muito específica: criança gorda é criança saudável. Comida era segurança. Comida era prova de que o pior não tinha voltado. Comida era afeto na única língua que o trauma havia deixado disponível.
Eu fui alimentada com esse código antes de ter vocabulário para lê-lo criticamente.
Então engordei. E quando fiquei adulta e o corpo respondeu ao código que havia sido instalado, não sabia como habitar esse corpo sem que ele fosse moeda de alguma coisa — vergonha, fracasso, julgamento. Ninguém havia me ensinado a existir no corpo como simplesmente existir.
Fiz bariátrica. Foi uma boa decisão, que não me arrependo. Mas o código alimentar que minha mãe instalou não opera no estômago. Ele opera em outro lugar, e cirurgia não tem acesso a esse lugar.
Sapolsky me permite entender minha mãe sem precisar culpá-la e sem precisar absolvê-la de forma que apague o impacto. Ela agiu com o código que tinha. O código dela foi instalado por condições que ela também não escolheu. A escassez que ela viveu era real. O medo que ficou era real. O que ela fez com esse medo teve consequências que eu carrego.
Cadeia causal sem culpado no sentido moral. Só causas produzindo efeitos produzindo efeitos.
A Venlafaxina
Desde 2019.
A venlafaxina é o que existe entre mim e os momentos em que o cérebro decide que existir é custoso demais. Não é cura — depressão com essa história não tem cura no sentido de eliminação. É gestão. É intervenção nas condições que produzem os estados mais insustentáveis.
Deterministicamente, faz todo sentido. Se comportamento é produto de condições neurobiológicas, alterar as condições neurobiológicas altera o comportamento. É exatamente o que Sapolsky prevê como ação racional.
Mas preciso ser honesta sobre o efeito colateral que ninguém menciona nos consultórios: o volume que foi ajustado não era só sofrimento.
Eu era mais intensa antes. Mais complexa. A sensibilidade às inconsistências estava mais alta. A capacidade de conexão entre ideias distantes era mais veloz. O processamento que não desliga estava mais ruidoso — o que era exaustivo e também era produtivo de formas que a versão atual nem sempre alcança.
A versão com venlafaxina é mais sustentável. A versão sem era mais eu, num sentido que ainda não sei nomear completamente.
Vivo com essa equação. Não é arrependimento — é precisão. Existe uma versão de mim que ficou no espaço de fase não visitado, e eu sei disso, e continuo tomando a medicação porque a alternativa já me mostrou onde leva.
Sapolsky diria que as duas versões eram igualmente inevitáveis dado o contexto de cada uma.
Ele provavelmente está certo.
O Que Produz Esse Cérebro
Doze anos de sala de aula com populações vulneráveis. Vinte e seis anos cuidando de uma filha com síndrome 6q+. Uma não recondução que me ensinou o que instituições fazem quando o poder não fala a sua língua. Uma formação que combina ciência, Freire, Saviani, Bourdieu e Sapolsky de formas que não cabem em nenhuma gaveta disciplinar. Uma depressão que existe desde os 16 e não pede licença. Um cérebro que não consegue usar fé como anestesia mesmo quando seria conveniente.
Esse cérebro não consegue não ver as variáveis.
Não é virtude. Não é dom. É o resultado inevitável de tudo que entrou — as enciclopédias, a escola como lar, o corpo que precisou aprender a ser habitado, a filha que ensinou que o espaço de fase pode ser varrido em direções que ninguém planejou, os anos vendo o que condições produzem em pessoas antes de qualquer escolha entrar na equação, e uma neurobiologia que desde a adolescência torna existir mais custoso do que deveria ser.
Sapolsky me permite parar de perguntar por que sou assim e começar a perguntar o que produz isso.
A resposta é tudo. Tudo que veio antes.
E tudo que veio antes não poderia ter sido diferente.
Isso não é fatalismo.
É a única forma honesta que encontrei de me olhar sem o filtro da culpa ou da autossuficiência heroica. Não sou assim apesar das condições. Sou assim por causa delas — completamente, deterministicamente, sem exceção.
O ceticismo não é postura intelectual. É a única resposta disponível para um cérebro que não consegue aceitar conforto sem evidência.
O agnosticismo não é rebeldia. É honestidade sobre os limites do que pode ser testado.
A depressão não é fraqueza. É uma das condições que me construiu — junto com as enciclopédias, a escola, a minha filha, Freire, Sapolsky, e tudo mais que entrou antes de eu ter mãos para segurar qualquer coisa.
O código que eu sou foi escrito antes de eu ter mãos para segurá-lo.
